Ser poeta é…

27 11 2007

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Charneca em FlorFlorbela Espanca, 1894-1930, Portugal)





Um lugar de paz…

27 11 2007

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Sonho e realidade…

21 11 2007

Ouvi hoje uma frase interessante que partilho aqui. E partilho-a porque também amo e sonho. Que seria de nós sem o sonho? Porém, nunca misturo o sonho, ou confundo a realidade. Pois, por mais voltas que se dê, estamos presos a essa realidade, espacial e temporalmente. Mas, dizia a frase: «Sonhar demasiado leva-nos, muitas vezes, a confundir a realidade».





Adeus… um poema triste e belo…

21 11 2007

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!

E eu acreditava.

Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo em que os meus olhoseram os tais peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade:uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nomeno silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de tinão há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus…

Eugénio de Andrade





Sorriso

21 11 2007

«Creio que foi o sorriso. O sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso. Correr, navegar, morrer naquele sorriso».

 

Eugénio de Andrade





Amizade…

12 11 2007

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos” .

Vinícius de Moraes





Mulheres na sombra…

9 11 2007

Não resisti a registar um momento que vivenciei. Há dias, quando atravessava a minha cidade a pé, à noite, para ir ao cinema, confrontei-me com um grupo de mulheres, ditas, ou consideradas, “mulheres da rua”. Estavam ali, dobradas, sentadas num muro de jardim, devorando cigarros. Refugiavam-se nas sombras da noite e da estrada, denunciadas apenas pelas pontas de cigarro. Não disseram uma palavra. Olharam, simplesmente, como se dessa forma formulassem um desejo, ou um convite. O meu passo apressado terá sido a resposta à pergunta que não fizeram, ao convite que nem esboçaram, ou ao desejo que acabaram por não manifestar. Não sei porquê, mas registei aquele quadro. Aquela imagem ficou gravada durante um certo tempo, até que chegasse junto dos amigos com quem tinha combinado uma noite de cinema, até que começasse um outro filme. Elas devem ter ficado onde as encontrei. Provavelmente, terão regressado ali na noite seguinte. Se calhar voltaram também na outra. Não sei. Talvez elas estejam condenadas àquele lugar, obrigadas a marcar presença enquanto houverem sombras e noite, cigarros e clientes.